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Ulrico Zuínglio: O Reformador de Zurique

Natural de Wildhaus, Vila nos Alpes suíços. Ingressou no sacerdócio aos 22 anos na pequena, mas importante cidade Suíça militar de Glarona. Esta cidadezinha era conhecida pelos disciplinados e bravos soldados lanceiros que possuía.

A Chama Inextinguível: Descobrindo o Cerne da ReformaAutor: Michael ReevesUlrico Zuínglio

 Natural de Wildhaus, Vila nos Alpes suíços. Ingressou no sacerdócio aos 22 anos na pequena, mas importante cidade Suíça militar de Glarona. Esta cidadezinha era conhecida pelos disciplinados e bravos soldados lanceiros que possuía. Os soldados eram temidos como guerreiros mercenários. A relação desta parte da Suíça com o papado estava ligada especialmente à guarda pessoal do papa e da igreja. É neste contexto que surge em cena Ulrico Zuínglio.
Deste primeiro momento, Michel Reeves, destaca dois fatos importantes sobre a vida do Reformador: O sacerdócio e o militarismo. Estes dois elementos juntos marcaram toda a vida de Zuínglio até sua morte. Sobre a influência de Glarona e seu ambiente sobre Zuínglio, Michel Reeves destaca: “Glarona era quase um acampamento militar, fornecendo alguns dos maiores contingentes de homens para o exército papal”. Reeves continua: “Sendo Um ferrenho patriota, Zuínglio decidiu juntar – se a seus homens como capelão do exército, e passou a lutar pelo santo padre e pela santa madre igreja” (Pgs. 79, 80).
Foi justamente em uma batalha sangrenta com cerca de dez mil suíços mortos que Zuínglio teve sua primeira grande decepção com o clero. Zuínglio passou a questionar – se em sua vocação sacerdotal e em sua prestação de serviço à igreja. Aqui, Zuínglio percebe o quanto estava distante de Deus e Sua Palavra. O que o jovem sacerdote fez? Comprou uma recém impressa Bíblia Grega do Novo Testamento de Erasmo de Roterdã. Tal atitude de Zuínglio causou – lhe uma transformação interna poderosa. Tudo isso em plena aurora da Reforma Protestante. Para se ter uma idéia do impacto do Novo Testamento de Erasmo sobre Zuínglio, Reeves diz que o reformador “estava tão empolgado que copiou muitas das cartas de Paulo e memorizou quase todo o Novo Testamento em grego” (Pg.81).
Zuínglio estava sendo transformado e preparado pelo Espírito Santo de Deus. A Reforma, dentro do soberano e sábio plano divino lhe aguardava providencialmente.
Vale ainda ressaltar nesta fase inicial do ministério de Zuínglio, que, apesar de sua conversão, crescimento espiritual e teológico, o reformador estava bem ligado à igreja papal. Recebia seus proventos e nomeações. Zuínglio fora até apontado “capelão papal”.
Em 1518, depois de sua fama de pregador, Zuínglio foi nomeado pregador na “Grande Igreja” em Zurique. Reeves destaca que neste período ministerial da vida de Zuínglio, sua teologia estava evoluindo. Não havia ainda por assim dizer uma crise, um cisma entre Zuínglio e o sistema romano papal. Contudo, era apenas uma questão de tempo. Em 1519, data do trigésimo quinto aniversário de Zuínglio, Reeves destaca nestes termos a grande atitude do reformador que teve impacto permanente em sua vida e ministério bem como na vida e espiritualidade da cidade de Zurique:
“Ele subiu ao púlpito sob as altas torres da Grande Igreja e anunciou que, em vez de pregar leituras predefinidas e encher seus sermões de pensamentos dos teólogos medievais, ele pregaria todo o Evangelho de Mateus versículo por versículo. E, ao terminar isso, ele continuaria seguindo pelo resto do Novo Testamento. A Palavra de Deus chegaria a todas as pessoas de forma pura, inalterada e constante: esse era o único alvo de Zuínglio e Zurique seria reformada assim” (Pg. 82).
Eis aqui uma lição tremenda e poderosa: A pregação expositiva como meio fundamental e inquestionável de transformação, avivamento e reforma. Certamente a igreja contemporânea estaria bem diferente se os líderes e pregadores de hoje, em sua maioria, imitassem Ulrico Zuínglio neste particular! Oremos! Preguemos! Confiemos em Deus!
Reeves cita que ainda em 1519, “a praga atingiu Zurique e quase levou Zuínglio consigo”. E continua: “Isso foi tão marcante para ele como o raio que quase atingiu Lutero catorze anos antes: levado à beira do abismo da morte, ele foi forçado a pensar na eternidade. Mas, enquanto Lutero invocou santa Ana, Zuínglio descobriu que só poderia confiar na misericórdia divina” (Pg. 82).
É neste ponto da vida de Zuínglio que sua visão e ação sobre a real situação da igreja tomam uma dimensão de combate. Ele não mais consegue ficar indiferente em face de toda uma sistemática idolátrica e mercenária por parte da igreja. Zuínglio agora estava pronto a confiar e depender inteiramente da providência de Deus.
Reeves faz questão de frisar que a personalidade de Zuínglio era bem diferente da de Lutero. Reeves classifica Lutero no capítulo 2 de seu livro como “O Vulcão de Deus”. Mas Zuínglio é bem diferente! Nas palavras de Reeves, o reformador “era alguém muito cauteloso, agindo com covardia às vezes, e isso significava que a Reforma em Zurique foi menos dramática e explosiva que em outros lugares” (Pg. 83).
A Reforma em Zurique, por assim dizer, teve a cara de seu principal líder – Ulrico Zuínglio. Foi uma chama inextinguível, mas à semelhança de um fogo de monturo – queima só por dentro. Parece apagado. Mas é uma falsa impressão. Há fogo. Há queima. Assim, Deus em sua providência agiu através de Ulrico Zuínglio. Assim, a Reforma Protestante eclodiu na parte norte da pequena Suíça. Isto, sem falar da parte sul, Genebra, do Reformador João Calvino, o grande sistematizador da Reforma.
Pois bem, a Reforma para Zuínglio em Zurique tinha que acontecer através da transformação e mudança internas. Zuínglio estava disposto a pagar o preço através da pregação pura do Evangelho, versículo por versículo, até a penetração poderosa do Espírito Santo na vida do ouvinte. Tal resultado não acontece do dia para noite. É demorado. Não é imediatista. Zuínglio entendia que a Reforma em todas as áreas da vida tinha que acontecer de dentro para fora. O meio para esse fim era a pregação fiel e pura da Palavra na total dependência do Espírito Santo. É lógico que houve reações contrárias. É justamente aqui que começa primeiramente na vida e ministério de Zuínglio e posteriormente de toda a Europa – a controvérsia e surgimento dos Radicais, ou – Anabatistas.
Zuínglio por ter uma atitude mais discreta quanto a Reforma, estava sendo acusado de conchave com o rei da França e com o papado. Havia constrangedores rumores acerca de sua vida e ministério. De herege até anticristo chamavam Zuínglio. Por isso ele era tido em Zurique pelos Radicais como uma pedra de tropeço. Tinha que ser imediatamente removida. Era cobrada de Zuínglio a mesma disposição enérgica de Lutero em Wittenberg e Worms.
Havia, agora, uma necessidade urgente da teologia de Zuínglio aparecer no cenário! Reeves escreve: “Enquanto Lutero se restringiu a atacar as indulgências e a teologia medieval corrupta, Zuínglio apresentou um conjunto muito mais abrangente do pensamento da Reforma”. Reeves continua:
“Nas teses, ele argumentava que Cristo, o verdadeiro cabeça da igreja, governa a igreja por meio da Palavra, não do papa. Assim, a Bíblia, não o papa, é o mestre”. Concluindo, Reeves destaca: “Essa foi a punhalada direta no coração das alegações do papa e de seu poder. Ele também argumentava que a morte de Cristo na cruz foi um sacrifício completo e não precisava ser repetido na missa.” (Pg. 86).
O cenário para um grande debate estava montado e Zurique era o palco. De um lado, Ulrico Zuínglio, do outro, os Radicais. Em jogo e disputa, o futuro da Reforma na Suíça, especialmente em Zurique. Reeves magistralmente registra:
“Chegou a hora do confronto entre Zuínglio e seus oponentes. […] Quando o dia chegou, a prefeitura estava lotada, pois ocorreria uma tensa luta teológica com o futuro de Zurique em jogo. Zuínglio entrou e, quase de imediato, deixou claro que contava com armas melhores. Ele falou enquanto mantinha cópias do Novo Testamento em grego, do Antigo Testamento em hebraico e da Vulgata em latim diante de si. E estava claro que ele as conhecia muito bem; ele conseguia citar longas passagens dos textos originais de memória. Em suma, ele foi imbatível, e o debate, um completo triunfo para ele. Ninguém ousava encarar esse peso – pesado teológico com a acusação de heresia” (Pgs. 89, 90).
Após o debate, em Zurique fora regulamentado de imediato pelo concílio da cidade que seria legal apenas a pregação bíblica (Pg. 90). Os efeitos da Reforma seriam notados a partir de agora, oficialmente, como almejava Zuínglio, somente através de Sola Scriptura. O resultado imediato foi o surgimento de uma escola para pregadores. Zuínglio foi reconhecido como o grande mestre e teólogo de Zurique. O tri – pé da Reforma Protestante estava lançado: Lutero, na Alemanha, Zuínglio, em Zurique e Calvino, em Genebra! O futuro da Reforma em seus resultados duradouros e permanentes pela ação e providência divina estava garantido. Soli Deo Glória. Amém! Reeves, sobre o futuro da Reforma em Zurique escreve:
“Com seus dias (Zuínglio) dedicados ao estudo bíblico e às palestras sobre teologia, surgiu uma geração de pastores e missionários treinada no conhecimento da Bíblia. Desses períodos de estudo vieram comentários sobre vários livros da Bíblia, bem como uma tradução completa e ricamente ilustrada, publicada como a Bíblia de Zurique em 1531. Assim, Zuínglio carregou os compartimentos de bomba da Reforma em Zurique, tornando a invasão bíblica quase impossível de resistir” (Pg. 90).
Michel Reeves denominou Ulrico Zuínglio como “O Mercenário de Deus”. Como soldado de Deus, Zuínglio morreu em batalha. Com o crescimento e solidez da Reforma em Zurique, Roma e o papado não deixariam de graça. Um grande e poderoso exército católico suíço entrou na cidade e atropelou o pequeno, mas corajoso exército local. Estava à frente do pequeno exército em batalha ninguém menos do que “O Mercenário de Deus”. Nas palavras de Reeves, “não houve disputas: as forças de Zurique foram facilmente esmagadas, e Zuínglio gravemente ferido” (Pg. 92). O grande reformador caiu ferido, ainda vivo, mas por pouco tempo. Impiedosamente, depois de encontrado, fora cruelmente apunhalado até o último suspiro. Como se não bastasse, ainda teve seus membros esquartejados e queimados com o pretexto de não ser usado como objeto de idolatria.
Para muitos, com a morte de Zuínglio, a Reforma em Zurique tinha sofrido um terrível golpe. Enganaram – se! A Reforma é uma chama inextinguível. Em Zurique era semelhante, como já mencionado, a fogo de monturo. Estava queimando por dentro. Ao matarem “O Mercenário de Deus”, outro soldado, tenente do exército de Zuínglio, assumiu o posto, seu nome era: Heinrich Bullinger. Surgiu uma lenda em torno do reformador de Zurique, que depois de morto, mesmo com o corpo esquartejado e queimado, o coração de Zuínglio não pôde ser destruído (Pg. 93). O certo é que a influência da vida e pregação de Zuínglio impactou tremendamente seu imediato sucessor em Zurique, Bullinger e certamente, mais tarde, em Genebra, o reformador João Calvino. A Suíça tornou – se, pela graça e agência de Deus, uma coluna firme e estável para a Reforma na Europa e para a Europa, bem como para todo o mundo.
Os Radicais estavam espalhados onde a luz da Reforma iluminava. Eles se achavam e denominavam – se como os verdadeiros Reformadores. Queriam o completo rompimento com Roma e o papado, se necessário, à força. O lema era: “Nasça de novo ou morra” (Pg. 95). Nada de imagens. Elas deviam ser completamente destruídas, queimadas. A Reforma, para os Radicais, deveria ser enérgica, rápida. Para isso muitos Radicais usaram demasiadamente a força. Colocaram em risco a verdadeira Reforma. Trouxeram mais instabilidade e insegurança à já turbulenta Europa. Era uma espécie de Reforma à força, aparente. Alguns Radicais mereciam respeito, pois tinham certa bagagem teológica e eram, apesar de discordantes, pacíficos e ordeiros.
Reeves cita um episódio que retrata bem esse ambiente: “Três homens da área de Zwickau chegaram a Wittenberg, afirmando serem profetas que não precisavam da Bíblia, pois o Senhor falava com eles. Rejeitavam o batismo infantil e defendiam o avanço do reino de Deus por meio do massacre dos ímpios: ‘Nasça de novo ou morra!’. As comportas da mudança foram abertas, e as águas começaram a correr”. E conclui: “Wittenberg estava em uma espiral rumo ao caos” (Pg. 95).
Alguma coisa deveria ser feita. Surge em cena a batalha entre os Reformadores e os Radicais. Zuínglio não poderia ficar escondido atrás de sua personalidade mui cautelosa. Era hora de sair ao combate.
Um grande nome que surge neste momento extremamente turbulento é o de Thomas Müntzer. “Müntzer era um pregador de fogo e enxofre que via a si mesmo como um novo Gideão, um profeta – guerreiro enviado para trazer juízo sobre os ímpios” (Pg. 96). Dava vazão à “luz interna” ou a “palavra interior”. Acreditava que Deus falava diretamente com ele. Isso tornou – se uma marca fortíssima no movimento Radical Anabatista. Reeves destaca um comentário de Lutero sobre Müntzer: “Müntzer pensa que engoliu o Espírito Santo, com penas e tudo” (Pg. 97).
O estopim de toda essa agitação se deu lamentavelmente na histórica Guerra dos Camponeses alemães em 1524 – 1525, quando morreram cerca de cem mil camponeses. Essa batalha ficou conhecida como a “maior revolta popular na Europa antes da Revolução Francesa de 1789” (Pg. 97). Müntzer, nessa batalha, foi capturado, torturado e decapitado. Michael Reeves faz questão de registrar o nome do principal líder Anabatista – Menno Simons. Simons era um teólogo holandês nascido treze dias depois de Lutero. Tornou – se sacerdote católico romano. Mas, identificou – se com o movimento Anabatista dando – lhe vida nova. Sob a liderança de Simons, o movimento “afastou – se de revoluções sangrentas e revelações particulares” (Pg. 105). Agora, os Anabatistas se tornariam Menonitas, tendo Menno Simons como seu principal líder e mentor. O movimento seria marcado deste momento em diante por seguidores com características pacíficas e bíblicas. A igreja Menonita vive até hoje espalhada pelo mundo.
O Livro, A Chama Inextinguível: Descobrindo o Cerne da Reforma, de Michael Reeves, é excelente. Além do prefácio e prólogo, o livro é distribuído em sete capítulos. Traz uma abordagem mais histórica que teológica da Reforma Protestante. Os principais personagens descritos por Reeves são: Lutero, Zuínglio e Calvino. Mas, como bom historiador, na introdução do livro, Reeves comenta magistralmente sobre o contexto que envolvia os pré – reformadores dando ênfase aos dois principais nomes: Wycliffe e Huss. Os desdobramentos da Reforma são vistos especialmente na Inglaterra, onde, Reeves dá destaque aos Puritanos em sua luta para reformar a igreja católica. Reeves faz isso em dois capítulos: Paixão em Chamas: A Reforma na Grã – Bretanha e A reforma da Reforma: Os Puritanos. O título do livro é tratado mais especificamente no último capítulo que traz por título: A Reforma acabou?
É claro que a Reforma não acabou e jamais acabará. Houve tentativas de unidade, mais da parte romana do que da parte dos protestantes, entre Católicos e Reformados. Mas o fim para qualquer outra tentativa fora decretado em 1545, com a convocação papal para o Concílio de Trento. Desse dia em diante a história da Igreja Cristã jamais seria a mesma. As diferenças até hoje giram especialmente em torno de questões Governamentais, Doutrinárias e Litúrgicas. Do ponto de vista bíblico, não há como unir esse dois ramos da cristandade. Apesar desse fato, desde o começo da segunda metade do século XX, têm acontecido tentativas de uma reaproximação. Reeves escreve:
“Sem dúvida ocorreram algumas mudanças em Roma, em especial desde a década de 1960, mas, com respeito às questões teológicas que causaram a Reforma, nenhuma doutrina foi revogada. O conceito de Roma sobre a justificação permanece idêntico ao afirmado em Trento (como a crença atual ratificada no Catecismo): “Escritura e Tradição devem ser aceitas e honradas com iguais sentimentos de devoção e reverência”. Assim, enquanto devam ser aplaudidas as tentativas de ampliar a unidade cristã, também é preciso reconhecer que, como as coisas estão, a Reforma não acabou” (Pg. 220).
Michael Reeves deixa claro em seu livro que não concorda com o ecumenismo hodierno nem com a comunhão do protestantismo reformado com o catolicismo romano. Para Reeves, a chama da Reforma ainda queima e arde dentro do coração de todo verdadeiro crente, bem como de toda verdadeira Igreja. O livro é um testemunho histórico e teológico da luta de homens e mulheres para manter firme a chama que nunca se apaga: A Reforma Protestante fundamentada em Cristo e Sola Scriptura. O Senhor nos abençoe. A Deus toda honra, poder e glória eternamente. Amém!

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